País (pode) regressa(r) do abismo

Por: Francisco J. P. Chuquela

A Ciência, a Tecnologia e a Educação, mas principalmente esta última, são os sectores chaves na concretização dos objectivos de um país em vias de desenvolvimento. Um país que precisa de quadros com visão minimamente suficiente, não só para identificar oportunidades, mas também para explorá-las inteligentemente.

Na tarefa de formar quadros verdadeiramente competentes, este país estava de férias. Há aproximadamente uma década, o sector de Educação não se importa com o desempenho dos alunos para lhes graduar de um nível académico para o outro. Em suma: este sector importa-se com os resultados numéricos e não com a qualidade, empurrando, desta feita, o país para um abismo que seria possível evitar.

Neste país está-se numa situação em que basta mais meia década com o mesmo comportamento para se ver doutores e peritos analfabetos na tomada de decisões e na condução de uma nação que, com dirigentes competentes, é/seria merecedora e promissora de progressos inimagináveis.

Agora, os responsáveis por esta área bastante sensível da vida de um país devem ter colocado a mão na consciência e resolvido buscar formas de corrigir o erro enquanto corrigível, pois é curto o tempo que resta para que o erro seja incorrigível.

Pois sim que a conclusão mais imediata a que se chega em relação a decisão do Ministério de Educação, de parar as passagens automáticas é de que os dirigentes deste país só se apercebem do erro aproximadamente dez anos depois de comete-lo.

Mas vejamos que a abolição de passagens automáticas é, ainda, apenas uma decisão. Quem nos garante que isso irá à prática? Quantas decisões foram tomadas e não foram colocadas em prática neste país? O caso da cesta básica de que o governo engravidou e abortou muito prematuramente é uma recordação exemplar de nos emprestar a insegurança no concernente a eliminação das assassinas passagens automáticas.

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Estudantes (não) sabem escrever no computador?

Por: Francisco J. P. Chuquela

“Ganhar a ciência para sermos capazes de mobilizar a natureza a favor do Homem” é apenas um tostão do que fora ditto pelo presidente Samora no âmbito de incentivar a concepção da ciência e tecnologia no país como forma de acelerar a construção do Moçambique pôs-independência.

Hoje a ciência e tecnologia ganha imensurável espaço no país, dando fôlego à globalização que se move a velocidade turbinada. Mas parece haver gente que fecha os olhos a esta tão presente manifestação científica que percorre o país.

Parte considerável de estudantes da maior instituição do ensino superior no país não sabe escrever no computador, facto que leva a corridas imparáveis quando há trabalhos de pesquisas cujos resultados devem ser dactilografados e entregues aos professores.

Nas casas de “internet café” há um valor estipulado que se paga para ocupar um computador durante um determinado tempo calculado em minutos. Além desse valor, a maioria de estudantes paga a mão de obra, isto é, a pessoa que vai manejar o computador em seu lugar. Ridículo, acho.

Os estudantes almejam concluir os seus cursos e conseguir afectação nas áreas de sua formação. Pergunto: qual é a área de trabalho que dispensa o uso do computador?

Falta de vontade de aprender
Para os estudantes que acabam de ingressar neste nível de ensino pode se esperar que se esforcem a assimilar o manejo dessas máquinas. Mas o que é que se diz daqueles que estão na recta final dos seus cursos ainda a olharem para os computadores com estranheza e ignorância?

Para quem se preocupa em aprender, não acho que um mês seja pouco para se aprender pelo menos digitar um documento no computador. Agora, o que se deve dizer de um estudante que leva quatro anos a depender dos outros para passar as suas ideias do manuscrito para dactilografado?

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As fintas de que os moçambicanos não se apercebem

Por: Francisco Joaquim Pedro Chuquela

Muito lamentavelmente, as elites moçambicanas ganham cada vez mais confiança do povo que dirigem à custa de manipulações. É que os dirigentes deste país criam no povo, através das suas estudadas retóricas, a impressão de que está tudo a melhorar quando, na verdade, está tudo a piorar.

Com certeza, ainda se tem em memória imagens e palavras inteligentes de Moçambique iluminado do Rovuma ao Maputo. A verdade é que tais imagens e palavras foram fruto da imaginação de quem quer mostrar o que se quer e não o que se tem, a fim de angariar confiança e credibilidade para continuar a retroceder o povo em nome do progresso deste.

Moçambique está iluminado sim, mas à luz de velas e xiphefu (candeeiro à base de garrafa e corda absorvente de petróleo). Quer acreditar? Tenha antes em conta que Moçambique não é uma pequena congregação de gente fechada e afaste-se um pouco da cidade ou da vila em que possivelmente se encontra. Veja por si mesmo a dimensão da mentira das imagens que mostram o um Moçambique iluminado. Coloque um grande X no slogan “Moçambique está iluminado” se o tiver recebido em cartaz para pendurar no seu quarto, na sala ou no escritório em nome do patriotismo.

Essas exibições podem ter dado sucessos políticos e meios de justificação de fundos a gente enganadora do povo. Quero eu arriscar e afirmar que este país está longe de ser iluminado, pois deve estar apenas 15% iluminado. E porque não menos?

No lugar desses “fintosos” slogans diga-se que pequenas porções do território estão iluminadas, mas também momentaneamente iluminadas porque tem-se uma electricidade que sabe mais exibir piscas. Afinal, quem, mesmo com a dita “nossa” Cahora Bassa, já sentiu saudades de um apagão repentino e de desrespeito? As nossas luzes não são mais que pirilampos ou meros sinais de faróis verdes e preguiçosos.

Compatriota, não espere ser dito como Moçambique é. Veja por si mesmo e escape de manipulações.

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Ngolhosa, um lugar esquecido

Por: Francisco Joaquim Pedro Chuquela

Uma comunidade em constante início, é a caracterização primária que se pode dar ao bairro Ngolhosa, a dezenas de quilómetros para norte da cidade capital, Maputo. O lugar é, incontestavelmente, uma das provas da “desatenção” do posto administrativo de Moamba, administração a que o bairro pertence. Tem tudo em pequenas porções. Numa classificação de zero a dez, damos nota zero para área de saúde, zero para segurança pública, dois para transporte, três para actividades económicas, quatro para educação e cinco para água.

Para quem vai, por primeira experiência, ao bairro Ngolhosa a sensação é de estar a entrar num habitat unicamente selvagem quando, na verdade, o espaço é dividido por homens e animais, sendo que esses últimos vão se afastando do lugar assustados pela destruição, pelo Homem, das matas. Esta situação sistematizou a separação Homem/animal pelas zonas. Há zonas, cuja mata ainda é virgem, interessantes até para acampamentos turísticos e zonas habitadas pelo homem, em forma de aldeias, lembrando os tempos e lugares de clãs.

Saúde

“O senhor administrador priva-nos dos serviços de saúde” – população

De saúde, o bairro Ngolhosa só tem um edifício sanitário que não está e nunca esteve em funcionamento desde a sua edificação. Essa infra-estrutura é investimento das missões católicas que tiveram vontade de amparar a população daquele lugar, mas, segundo testemunhos de residentes, o governo, representado pelo administrador do posto administrativo de Moamba, não permite a sua abertura alegadamente por não contemplar serviços de maternidade. Não se sabe se os missionários irão mover fundos para atender a essa exigência. “O senhor administrador priva-nos dos serviços de saúde”, diz *Firmino Moio.

Para cuidados de saúde, os viventes do bairro Ngolhosa deslocam-se para Muhalaze, Tenga e/ou Quilómetro 25, essas distâncias todas a pé. As nossas testemunhas dizem que “as pessoas preferem ficar descansadas porque não conseguem percorrer longas distâncias quando estão doentes, algumas acabam morrendo”. Afirmam também haver um jovem que foi fazer o curso farmacêutico, mas não dispõe de condições materiais para desenvolver actividades relacionadas ao seu curso.

Educação

“Somos limitados como no tempo colonial”

Na área de educação, o bairro Ngolhosa dispõe unicamente de uma escola primária com três imagens diferentes. É que a escola tem duas salas de cimento, duas de caniço e muitas de sombras de árvores. Os residentes de Ngolhosa que não dispõem de condições para viagens estão condenados a terminar os seus estudos no ensino primário uma vez que a EPC de Ngolhosa só lecciona até sétima classe. *Orlando Magaia, que concluiu a sétima classe em 2011, agora sem nenhuma ocupação, diz que “isto é o que acontecia no tempo colonial, não tínhamos que estudar mais do que o colono determinava”.

Transporte

“Conseguimos andar entulhados nos camiões nos dias de sorte”

Uma vez que o bairro Ngolhosa não tem mercados, há necessidade de os populares deslocarem-se para lugares distantes a fim de efectuar as suas compras, o que tem sido uma dura manobra. Há carros “caixa aberta” que vão carregar, de quando em vez, as pessoas de Ngolhosa para Muhalaze, onde conseguem outros que as levam a Intaca onde, por sua vez, há carros que as levam para mercado Drive-in e grossista de Zompeto. Aqueles que trabalham na cidade alugam casas perto dos seus postos de trabalho e voltam para Ngolhosa nos fins de semana.

Água

“A água dos poços nos faz escapar da comercializada”

O bairro Ngolhosa não tem água canalizada. O precioso líquido é conseguido nos poços e num dos dois fontanários, sendo que o outro sofreu uma avaria que se acredita ser pequena. Há quem foi instalar no bairro um furo e vende a água a um metical/vinte litros, mas, segundo o residente *Miguel Ndeve, “não temos condições para encher os nossos tambores de água comprada. Preferimos continuar a consumir água dos poços porque não é estranha como a dos poços doutras zonas”.

Segurança

“Começamos a sentir a falta de policiamento”

Ngolhosa é um bairro caracterizado por calma e boa reputação dos residentes. Dai que, segundo eles “o nosso medo foi sempre de ataques de animais como javalis e cobras que saíam do mato para nossas residências, antes de muitos deles se afastarem para matos ainda não habitados pelo Homem”. Acrescentam que “mas agora fala-se muito de malfeitores (já humanos) que agridem e assaltam pessoas de noite. Isso nos faz começar a sentir a falta de policiamento.

Actividades económicas

“Não fazemos nada por culpa da falta de transporte”

Se Ngolhosa desenvolve alguma actividade relevante é a agricultura e a pecuária em pequena escala, sendo que a pecuária foi enfraquecida pelo excessivo roubo de gado. Já a agricultura chega a não ter grande impacto por falta de meios de transporte para levar os excedentes ao mercado. Para solucionar o problema de roubo de cabeças de gado bovino, os criadores deixam o gado num grande espaço onde alternam-se em escalas de turnos para vigiarem. Há também tendência para gados suíno e caprino, mas ainda em escala difícil de notar alegadamente porque “é difícil criar porcos aqui porque não temos meios para transportar farelos da cidade para cá”, diz *João Maluleque.

Uma das actividades, já a não se fazer sentir como antes, é a caça. A caça em Ngolhosa esfriou quando os animais fugiram em massa para outras matas, mas ainda há caçadores que os procuram e vendem, não só por dinheiro, como trocam por outros produtos, as carnes de gazela, javali e ratos do mato, esses últimos que ainda não se afastaram muito da zona.

Porquê o nome Ngolhosa?

“Nem é Ngolhosa como dizem muitos, é KaNghodloza”

O nome Ngolhosa é registo oficial de KaNghodloza, numa situação que lembra as operações de razão linguística de KaMandlhakazi para Manjacaze e KaNtxaintxai para Xai-Xai, foram só exemplos. O nome KaNghodloza, segundo o conselheiro das estruturas do bairro, Carlos Ubisse, surgiu da divisão de Mukhatine, assim este é um lado de Mukhatine que passa a ser KaNghodloza, nome que nos registos é manobrado para Ngolhosa, por causa da influência da língua oficial portuguesa.

 

*Nomes fictícios

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Rúben, O verdadeiro interveniente social

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Discurso corajoso em video

Por Francisco Joaquim P. Chuquela

Discurso do Francisco Joaquim Pedro Chuquela, no Centro Cultural Americano em Maputo, Moçambique, vencedor, em 1º lugar, do concurso literário Eu Tenho Um Sonho – 2012.

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Sistema de Estagnação

Escrito por: Francisco Joaquim P. Chuquela

Os moçambicanos não cessam de se queixar das mil e uma culpas do actual Sistema Nacional de Educação. Desde a sua introdução e arranque, este sistema tem a fama de ter estagnado o rítmo do Processo do Ensino e Aprendizagem a que se assistia nos sistemas por este substituidos. As televisões e rádios têm transmitido inúmeros debates cujos resultados são no soluções buscadas e não são postas em funcionamento.
Com o sistema em alusão, o Ministério de Eucação tornou-se uma grande máquina de produção quantitativa, e não qualitativa, facto que se justifica pelo número de alunos e/ou estudantes que terminam com sucesso os períodos lectivos, mas sem conhecimentos que justifiquem as suas progressões ou seja, somam níveis que não justificam o seu aproveitamento pedagógico real.
Dedos acusadores
O ensino secundário, que recebe alunos mal preparados, acusa o primeiro ciclo do ensino primário de não cumprir o papel de habilitar os alunos, geralmente crianças, a saberem ler e escrever. Já o primeiro ciclo do ensino primário, neste caso o ciclo acusado, justificacom o insucesso com a não colaboração dos encarregados de educação no processo de ensino e aprendizagem, o número mal/não regulado de alunos por professor e por turma, as sobrecargas horárias aos docentes…
 Os encarregados de educação, por sua vez, acusados de não colaborar no processo de ensino e aprendizagem, mostram exemplos concretos de sucessos do sistema de educação dos tempos em que a maioria dos encarregados era analfabeta de tal maneira que nem podia ajudar os educandos a fazer os seus Trabalhos  Casa. Eram tempos em que os encarregados limitavam-se a controlar os educandos para que não atrasassem ou faltassem à escola, que não fossem às aulas com fome, sujos, em fim indispostos.
Um número considerável de encarregados de educação tem os seus filhos a frequentar pequenos centros de explicação, onde alunos e estudantes aperfeiçoam as matérias dadas nas escolas formais. Esse facto é suficiente para contrariar a defesa dos professores, de que os encarregados de educação não colaboram no processo de ensino e aprendizagem.
Os líderes da nação, aqueles que desenharam o actual Sistema Nacional de Educação, não usufruem do mesmo, pois têm os seus filhos a estudar nas escolas de renome internacional, colégios, liceus, em fim, instituições que não têm nada que se assemelha a este nosso sistema de educação. É um gesto dos subordinantes que, sem dúvida, desanima os subordinados.
A conclusão que se pode tirar dos feitos deste sistema é que trata-se duma autêntica estratégia para lavar o país do alto índice do analfabetismo que muito marcou o Moçambique pós independência. Com este sistema, mais por causa das passagens automáticas, o índice de analfabetismo reduz à velocidade de comboio, isso resulta em quantidade de se aplaudir e qualidade pouco apreciável nos resultados reais finais.
Resultado
Com muito orgulho, orgulho vergonhoso, os nossos jovens, muito cegamente, ingressam no ensino superior com a grave dívida de dominar a “escrita e leitura”.

 

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