Ngolhosa, um lugar esquecido

Por: Francisco Joaquim Pedro Chuquela

Uma comunidade em constante início, é a caracterização primária que se pode dar ao bairro Ngolhosa, a dezenas de quilómetros para norte da cidade capital, Maputo. O lugar é, incontestavelmente, uma das provas da “desatenção” do posto administrativo de Moamba, administração a que o bairro pertence. Tem tudo em pequenas porções. Numa classificação de zero a dez, damos nota zero para área de saúde, zero para segurança pública, dois para transporte, três para actividades económicas, quatro para educação e cinco para água.

Para quem vai, por primeira experiência, ao bairro Ngolhosa a sensação é de estar a entrar num habitat unicamente selvagem quando, na verdade, o espaço é dividido por homens e animais, sendo que esses últimos vão se afastando do lugar assustados pela destruição, pelo Homem, das matas. Esta situação sistematizou a separação Homem/animal pelas zonas. Há zonas, cuja mata ainda é virgem, interessantes até para acampamentos turísticos e zonas habitadas pelo homem, em forma de aldeias, lembrando os tempos e lugares de clãs.

Saúde

“O senhor administrador priva-nos dos serviços de saúde” – população

De saúde, o bairro Ngolhosa só tem um edifício sanitário que não está e nunca esteve em funcionamento desde a sua edificação. Essa infra-estrutura é investimento das missões católicas que tiveram vontade de amparar a população daquele lugar, mas, segundo testemunhos de residentes, o governo, representado pelo administrador do posto administrativo de Moamba, não permite a sua abertura alegadamente por não contemplar serviços de maternidade. Não se sabe se os missionários irão mover fundos para atender a essa exigência. “O senhor administrador priva-nos dos serviços de saúde”, diz *Firmino Moio.

Para cuidados de saúde, os viventes do bairro Ngolhosa deslocam-se para Muhalaze, Tenga e/ou Quilómetro 25, essas distâncias todas a pé. As nossas testemunhas dizem que “as pessoas preferem ficar descansadas porque não conseguem percorrer longas distâncias quando estão doentes, algumas acabam morrendo”. Afirmam também haver um jovem que foi fazer o curso farmacêutico, mas não dispõe de condições materiais para desenvolver actividades relacionadas ao seu curso.

Educação

“Somos limitados como no tempo colonial”

Na área de educação, o bairro Ngolhosa dispõe unicamente de uma escola primária com três imagens diferentes. É que a escola tem duas salas de cimento, duas de caniço e muitas de sombras de árvores. Os residentes de Ngolhosa que não dispõem de condições para viagens estão condenados a terminar os seus estudos no ensino primário uma vez que a EPC de Ngolhosa só lecciona até sétima classe. *Orlando Magaia, que concluiu a sétima classe em 2011, agora sem nenhuma ocupação, diz que “isto é o que acontecia no tempo colonial, não tínhamos que estudar mais do que o colono determinava”.

Transporte

“Conseguimos andar entulhados nos camiões nos dias de sorte”

Uma vez que o bairro Ngolhosa não tem mercados, há necessidade de os populares deslocarem-se para lugares distantes a fim de efectuar as suas compras, o que tem sido uma dura manobra. Há carros “caixa aberta” que vão carregar, de quando em vez, as pessoas de Ngolhosa para Muhalaze, onde conseguem outros que as levam a Intaca onde, por sua vez, há carros que as levam para mercado Drive-in e grossista de Zompeto. Aqueles que trabalham na cidade alugam casas perto dos seus postos de trabalho e voltam para Ngolhosa nos fins de semana.

Água

“A água dos poços nos faz escapar da comercializada”

O bairro Ngolhosa não tem água canalizada. O precioso líquido é conseguido nos poços e num dos dois fontanários, sendo que o outro sofreu uma avaria que se acredita ser pequena. Há quem foi instalar no bairro um furo e vende a água a um metical/vinte litros, mas, segundo o residente *Miguel Ndeve, “não temos condições para encher os nossos tambores de água comprada. Preferimos continuar a consumir água dos poços porque não é estranha como a dos poços doutras zonas”.

Segurança

“Começamos a sentir a falta de policiamento”

Ngolhosa é um bairro caracterizado por calma e boa reputação dos residentes. Dai que, segundo eles “o nosso medo foi sempre de ataques de animais como javalis e cobras que saíam do mato para nossas residências, antes de muitos deles se afastarem para matos ainda não habitados pelo Homem”. Acrescentam que “mas agora fala-se muito de malfeitores (já humanos) que agridem e assaltam pessoas de noite. Isso nos faz começar a sentir a falta de policiamento.

Actividades económicas

“Não fazemos nada por culpa da falta de transporte”

Se Ngolhosa desenvolve alguma actividade relevante é a agricultura e a pecuária em pequena escala, sendo que a pecuária foi enfraquecida pelo excessivo roubo de gado. Já a agricultura chega a não ter grande impacto por falta de meios de transporte para levar os excedentes ao mercado. Para solucionar o problema de roubo de cabeças de gado bovino, os criadores deixam o gado num grande espaço onde alternam-se em escalas de turnos para vigiarem. Há também tendência para gados suíno e caprino, mas ainda em escala difícil de notar alegadamente porque “é difícil criar porcos aqui porque não temos meios para transportar farelos da cidade para cá”, diz *João Maluleque.

Uma das actividades, já a não se fazer sentir como antes, é a caça. A caça em Ngolhosa esfriou quando os animais fugiram em massa para outras matas, mas ainda há caçadores que os procuram e vendem, não só por dinheiro, como trocam por outros produtos, as carnes de gazela, javali e ratos do mato, esses últimos que ainda não se afastaram muito da zona.

Porquê o nome Ngolhosa?

“Nem é Ngolhosa como dizem muitos, é KaNghodloza”

O nome Ngolhosa é registo oficial de KaNghodloza, numa situação que lembra as operações de razão linguística de KaMandlhakazi para Manjacaze e KaNtxaintxai para Xai-Xai, foram só exemplos. O nome KaNghodloza, segundo o conselheiro das estruturas do bairro, Carlos Ubisse, surgiu da divisão de Mukhatine, assim este é um lado de Mukhatine que passa a ser KaNghodloza, nome que nos registos é manobrado para Ngolhosa, por causa da influência da língua oficial portuguesa.

 

*Nomes fictícios

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