Sonhos para mudar Moçambique

Escrito por: Inocêncio Albino (extraído do Jornal @Verdade)

Desengane-se quem pensa que, ao participar no Concurso Literário Eu Tenho Um Sonho, Francisco Joaquim Pedro Chuquela, o primeiro classificado do evento, tinha em mente os benefícios materiais que da sua eventual vitória poderiam advir. A verdade é que, conforme considera, “eu precisava de desabafar”. Por essa razão “concorri a pensar na construção de um espaço que funcionasse como uma espécie de boca da sociedade que julgo estar silenciada. Por andar furioso por causa do silêncio que se verifica no país, vou-me calar para evitar insultar”.

Foi com estas palavras que Chuquela, jovem de estudante de literatura, com apenas 25 anos de idade, visivelmente emocionado, se pronunciou perante o público que muito recentemente acorreu ao Centro Cultural Americano para não somente presenciar a divulgação dos melhores sonhos em relação ao futuro de Moçambique, como também pela forma como nós, os moçambicanos, em certo sentido, compreendemos a nossa condição social.

Denúncias

@Verdade teve acesso aos três discursos em que se revelam os sonhos dos jovens moçambicanos, os quais, sem sentido metafórico, representam o desiderato do povo.

Além de todas as qualidades que caracterizam uma comunicação que aborda a questão humana de um modo holístico, ou seja, como um todo, o discurso de Francisco Chuquela chamou a nossa atenção por realizar várias denúncias em relação a muitos aspectos da vida social cuja transformação, muitas vezes, é hipotecada pelo silêncio (cúmplice) do povo.

“Eu tenho um sonho (…) em que a diferença entre pessoas estará simplesmente nos nomes, não nos padrões de vida. Os filhos dos governantes e dos governados vão frequentar o mesmo sistema de educação. Os hospitais terão as mesmas clínicas para ministros e camponeses” (Sic.).

Mais adiante, Chuquela critica a disfunção do sistema de justiça ao mesmo tempo que revela um anseio: “A verdade vai substituir a camaradagem na justiça. (….) No meu sonho, o património colectivo vai servir a colectividade, não grupos restritíssimos”.

Apoiar os desfavorecidos

Em certo grau, no seu discurso, Francisco Chuquela revela um sentido humanista, o que faz com que no seu sonho se reitere que “os mega-salários e os megabónus serão convertidos em fundos para as crianças desamparadas, para os deficientes e para os idosos desfavorecidos. (…) os salários-fortuna e os bónus-fortuna serão transformados em reservas para a gestão de calamidades”.

É importante que se perceba que, grosso modo, o discurso de Chuquela revela as razões que retrocedem o desenvolvimento do país. É por essa razão que “Eu tenho um sonho (…) em que pagar imposto não significará contribuir para a compra do centésimo Mercedes de alguém, mas irá significar ajuda aos bairros como Incídua, onde um peixe é motivo de festa na aldeia, e de sapato só se fala para as crianças saberem que existe um objecto com tal nome”.

De acordo com Chuquela, quando estes e outros aspectos alistados no seu sonho forem aplicados “a vida no meu país não será simplesmente de se viver, mas será de se celebrar”.

Uma defensora da mulher

Ao que tudo indica, Georgina Fuel, a segunda classificada no certame, sente-se desconfortada sempre que depara “com situações de desconsideração e desrespeito gritante contra a mulher”. É que, no seu entender, “A mulher em Moçambique é discriminada, limitada, e violentada de todas as formas imagináveis e possíveis”.

Neste sentido Georgina, que é advogada de formação, posiciona-se como uma defensora da mulher para se manifestar nos seguintes termos: “Eu quero viver num país em que não sou tratada como um ser humano de segunda categoria, um ser humano de capacidades limitadas, e do qual não se pode esperar muito!”

Georgina afirma que é preocupante notar que apesar de proliferarem no país leis e instituições para defender a mulher contra todos os tipos de violência, os mesmos mostram-se ineficazes: “Quando a violência é emocional, verbal, psicológica ou económica… a situação é muito pior…como não há hematomas, ninguém liga… “ não houve nada” (Sic).

Por fim, no seu discurso, o terceiro classificado, Orlando José Penicela realiza um discurso que revela um sonho que, em certa medida, sintetiza os demais. Afinal, para si, “nenhuma existência humana digna pode ser garantida fora de uma sociedade livre, igualitária e fraterna”.

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