Monthly Archives: Agosto 2012

Discurso corajoso em video

Por Francisco Joaquim P. Chuquela

Discurso do Francisco Joaquim Pedro Chuquela, no Centro Cultural Americano em Maputo, Moçambique, vencedor, em 1º lugar, do concurso literário Eu Tenho Um Sonho – 2012.

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Sistema de Estagnação

Escrito por: Francisco Joaquim P. Chuquela

Os moçambicanos não cessam de se queixar das mil e uma culpas do actual Sistema Nacional de Educação. Desde a sua introdução e arranque, este sistema tem a fama de ter estagnado o rítmo do Processo do Ensino e Aprendizagem a que se assistia nos sistemas por este substituidos. As televisões e rádios têm transmitido inúmeros debates cujos resultados são no soluções buscadas e não são postas em funcionamento.
Com o sistema em alusão, o Ministério de Eucação tornou-se uma grande máquina de produção quantitativa, e não qualitativa, facto que se justifica pelo número de alunos e/ou estudantes que terminam com sucesso os períodos lectivos, mas sem conhecimentos que justifiquem as suas progressões ou seja, somam níveis que não justificam o seu aproveitamento pedagógico real.
Dedos acusadores
O ensino secundário, que recebe alunos mal preparados, acusa o primeiro ciclo do ensino primário de não cumprir o papel de habilitar os alunos, geralmente crianças, a saberem ler e escrever. Já o primeiro ciclo do ensino primário, neste caso o ciclo acusado, justificacom o insucesso com a não colaboração dos encarregados de educação no processo de ensino e aprendizagem, o número mal/não regulado de alunos por professor e por turma, as sobrecargas horárias aos docentes…
 Os encarregados de educação, por sua vez, acusados de não colaborar no processo de ensino e aprendizagem, mostram exemplos concretos de sucessos do sistema de educação dos tempos em que a maioria dos encarregados era analfabeta de tal maneira que nem podia ajudar os educandos a fazer os seus Trabalhos  Casa. Eram tempos em que os encarregados limitavam-se a controlar os educandos para que não atrasassem ou faltassem à escola, que não fossem às aulas com fome, sujos, em fim indispostos.
Um número considerável de encarregados de educação tem os seus filhos a frequentar pequenos centros de explicação, onde alunos e estudantes aperfeiçoam as matérias dadas nas escolas formais. Esse facto é suficiente para contrariar a defesa dos professores, de que os encarregados de educação não colaboram no processo de ensino e aprendizagem.
Os líderes da nação, aqueles que desenharam o actual Sistema Nacional de Educação, não usufruem do mesmo, pois têm os seus filhos a estudar nas escolas de renome internacional, colégios, liceus, em fim, instituições que não têm nada que se assemelha a este nosso sistema de educação. É um gesto dos subordinantes que, sem dúvida, desanima os subordinados.
A conclusão que se pode tirar dos feitos deste sistema é que trata-se duma autêntica estratégia para lavar o país do alto índice do analfabetismo que muito marcou o Moçambique pós independência. Com este sistema, mais por causa das passagens automáticas, o índice de analfabetismo reduz à velocidade de comboio, isso resulta em quantidade de se aplaudir e qualidade pouco apreciável nos resultados reais finais.
Resultado
Com muito orgulho, orgulho vergonhoso, os nossos jovens, muito cegamente, ingressam no ensino superior com a grave dívida de dominar a “escrita e leitura”.

 

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O silêncio assassino do povo

Escrito por: Francisco Joaquim P. Chuquela

O poeta-mor, Craveirinha, chorou o nosso sono, chamando-o de “Passividade Animal” no poema intitulado “Subida”, em cujos primeiros versos diz “Preço de açúcar e farinha subiu. / Ai a passividade animal! / Na Machava começou fome de amendoim / preço de amendoim na cantina subiu / Gente de Chamanculo tem sede / subiu preço de gogogo de água. / Ai a passividade animal!”, é só a primeira estrofe.

Hoje, décadas e décadas de anos depois da publicação daquele escrito poético e de várias outras prestações artísticas de intervenção social, como dezenas de títulos musicais de Jeremias Nguenha e de Azagaia entre outros,  indiscutivelmente suficientes para abrir a visão de milhares, o povo continua a dormir.

O que justifica o tão silencioso silêncio mediante arranhões dos que prejudicam em nome de ajudar? Para erguerem as cabeças, os moçambicanos não sofrem o suficiente ou não racionalizam o suficiente?

O povo é vítima daqueles que confia

Há uma intolerável confusão, pelo que parece. O povo confunde o “ser governado” com o “ser explorado”. É que o povo escolhe os dirigentes e perde totalmente, para eles, o poder. Esses, entre o silêncio ou olhos fechados do povo, exploram, no lugar de dirigir. O povo é, indubitavelmente, vítima daqueles que confia. Aproximadamente meio século depois da proclamação da independência total e completa, o povo ainda não está preparado para ser independente, numa autêntica afirmação de que a independência foi pré-proclamada. Resultado: os que se aperceberam tiram proveito disso.

Necessidade de despertar

Os moçambicanos precisam de se levantar e cobrar o país de que são donos. Sim, precisam de se autocurar da doentia passividade e do demoníaco conformismo e exigirem o país que ainda não lhes foi devolvido. É que este país foi (semi)arrancado das mãos dos tiranos, mas ainda não foi entregue ao povo, ainda não pertence ao povo. Ora, os moçambicanos devem honrar a dignidade de serem moçambicanos por procurarem usufruir aquilo de que são merecedores por serem moçambicanos. Devem, sobretudo, ser moçambicanos de honra, não de vergonha.

Quando (é que) Moçambique vai pertencer ao povo moçambicano(?)

Moçambique vai pertencer ao povo moçambicano quando este puder tirar proveito dos seus recursos, isto é:

quando o povo for maior consumidor da madeira nacional que os chineses;

Quando o povo for maior explorador do carvão mineral que os brasileiros e australianos;

Quando o povo sentir-se dono do seu próprio gás natural;

Quando o povo não tiver que passar por atritos com estrangeiros na extracção das arreias pesadas;

Quando…;

Quando…;

Quando…;

Esta terra só vai pertencer ao povo quando este, pelo menos, não tiver que comprar, a difícil dinheiro, sacrifício e humilhação, os terrenos para habitações…

Oh, despertai!

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Eu tenho um Sonho

Escrito por: Francisco Joaquim P. Chuquela

Eu tenho um sonho, um sonho em que a diferença entre pessoas estará simplesmente nos nomes, não nos padrões de vida. Os filhos dos governantes e dos governados vão frequentar o mesmo sistema de educação. Os hospitais terão as mesmas clínicas para ministros e camponeses.

Eu tenho um sonho, um sonho em que a equidade vai substituir o favoritismo na oferta de oportunidades. A verdade vai substituir a camaradagem na justiça. A transparência vai substituir a manipulação na exploração dos recursos do país. No meu sonho, o património colectivo vai servir a colectividade, não grupos restritíssimos.

Eu tenho um sonho, um sonho em que a história do país não será elaborada, mas buscada pela investigação e pesquisa. Os inimigos do povo não serão confundidos com heróis. Os assassinos e ladrões não serão homenageados e celebrados como deuses de carne e osso. Ainda no meu sonho, os verdadeiros heróis não vão partilhar o lixo com os cães nas ruas, pois o seu heroísmo vai-lhes levar aos mais altos púlpitos para prestarem exemplo às gerações vindouras.

Eu tenho um sonho, um sonho em que os mega-salários e os mega-bónus serão convertidos em fundos para crianças desamparadas, para deficientes e para idosos desfavorecidos. No meu sonho, os salários-fortuna e os bónus-fortuna serão transformados em reservas para a gestão de calamidades.

Eu tenho um sonho, um sonho em que os fortes exércitos, os carros blindados e os armamentos que foram mobilizados nos dias 1 e 2 de Setembro para massacrar o povo, este que expressava a sua opinião nas praças da pátria amada, serão mobilizados para perseguir os que tolhem a tranquilidade e ordem públicas.

Eu tenho um sonho, um sonho em que o povo vai tirar proveito da independência total e completa, independência que fora proclamada por um herói cuja fidelidade ao povo será tida como exemplo pelos heróis do meu sonho. No meu sonho, cada operação dos “donos do poder” será esclarecida. Já o estado da nação será analisado, não imaginado.

Eu tenho um sonho, um sonho em que pagar imposto não significará contribuir para a compra do centésimo Mercedes de alguém, mas irá significar ajuda aos bairros como Incídua, onde um peixe é motivo de festa na aldeia, e de sapato só se fala para as crianças saberem que existe um objecto com tal nome.

Eu tenho um sonho, um sonho em que a humanização e a civilização das mentes vão triunfar sobre o cabritismo. No meu sonho, a corrupção vai deixar de tolher o desenvolvimento do país. Os almoços-festa dos celebradores da vida paradisíaca serão cambiados em refeições condignas para os que agradeceriam por um pedaço de pão seco.

Eu tenho um sonho em que a expressão da masculinidade estará nas virtudes, não na poligamia. No meu sonho, serão conservados os valores consagrados pela humanidade. Haverá igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas não o empoderamento da mulher sobre o homem, nem do homem sobre a mulher.

No meu sonho, sobretudo, a vida no meu país não será simplesmente de se viver, mas será de se celebrar.

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Sonhos para mudar Moçambique

Escrito por: Inocêncio Albino (extraído do Jornal @Verdade)

Desengane-se quem pensa que, ao participar no Concurso Literário Eu Tenho Um Sonho, Francisco Joaquim Pedro Chuquela, o primeiro classificado do evento, tinha em mente os benefícios materiais que da sua eventual vitória poderiam advir. A verdade é que, conforme considera, “eu precisava de desabafar”. Por essa razão “concorri a pensar na construção de um espaço que funcionasse como uma espécie de boca da sociedade que julgo estar silenciada. Por andar furioso por causa do silêncio que se verifica no país, vou-me calar para evitar insultar”.

Foi com estas palavras que Chuquela, jovem de estudante de literatura, com apenas 25 anos de idade, visivelmente emocionado, se pronunciou perante o público que muito recentemente acorreu ao Centro Cultural Americano para não somente presenciar a divulgação dos melhores sonhos em relação ao futuro de Moçambique, como também pela forma como nós, os moçambicanos, em certo sentido, compreendemos a nossa condição social.

Denúncias

@Verdade teve acesso aos três discursos em que se revelam os sonhos dos jovens moçambicanos, os quais, sem sentido metafórico, representam o desiderato do povo.

Além de todas as qualidades que caracterizam uma comunicação que aborda a questão humana de um modo holístico, ou seja, como um todo, o discurso de Francisco Chuquela chamou a nossa atenção por realizar várias denúncias em relação a muitos aspectos da vida social cuja transformação, muitas vezes, é hipotecada pelo silêncio (cúmplice) do povo.

“Eu tenho um sonho (…) em que a diferença entre pessoas estará simplesmente nos nomes, não nos padrões de vida. Os filhos dos governantes e dos governados vão frequentar o mesmo sistema de educação. Os hospitais terão as mesmas clínicas para ministros e camponeses” (Sic.).

Mais adiante, Chuquela critica a disfunção do sistema de justiça ao mesmo tempo que revela um anseio: “A verdade vai substituir a camaradagem na justiça. (….) No meu sonho, o património colectivo vai servir a colectividade, não grupos restritíssimos”.

Apoiar os desfavorecidos

Em certo grau, no seu discurso, Francisco Chuquela revela um sentido humanista, o que faz com que no seu sonho se reitere que “os mega-salários e os megabónus serão convertidos em fundos para as crianças desamparadas, para os deficientes e para os idosos desfavorecidos. (…) os salários-fortuna e os bónus-fortuna serão transformados em reservas para a gestão de calamidades”.

É importante que se perceba que, grosso modo, o discurso de Chuquela revela as razões que retrocedem o desenvolvimento do país. É por essa razão que “Eu tenho um sonho (…) em que pagar imposto não significará contribuir para a compra do centésimo Mercedes de alguém, mas irá significar ajuda aos bairros como Incídua, onde um peixe é motivo de festa na aldeia, e de sapato só se fala para as crianças saberem que existe um objecto com tal nome”.

De acordo com Chuquela, quando estes e outros aspectos alistados no seu sonho forem aplicados “a vida no meu país não será simplesmente de se viver, mas será de se celebrar”.

Uma defensora da mulher

Ao que tudo indica, Georgina Fuel, a segunda classificada no certame, sente-se desconfortada sempre que depara “com situações de desconsideração e desrespeito gritante contra a mulher”. É que, no seu entender, “A mulher em Moçambique é discriminada, limitada, e violentada de todas as formas imagináveis e possíveis”.

Neste sentido Georgina, que é advogada de formação, posiciona-se como uma defensora da mulher para se manifestar nos seguintes termos: “Eu quero viver num país em que não sou tratada como um ser humano de segunda categoria, um ser humano de capacidades limitadas, e do qual não se pode esperar muito!”

Georgina afirma que é preocupante notar que apesar de proliferarem no país leis e instituições para defender a mulher contra todos os tipos de violência, os mesmos mostram-se ineficazes: “Quando a violência é emocional, verbal, psicológica ou económica… a situação é muito pior…como não há hematomas, ninguém liga… “ não houve nada” (Sic).

Por fim, no seu discurso, o terceiro classificado, Orlando José Penicela realiza um discurso que revela um sonho que, em certa medida, sintetiza os demais. Afinal, para si, “nenhuma existência humana digna pode ser garantida fora de uma sociedade livre, igualitária e fraterna”.

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